O futuro do Futebol Brasileiro

[Abril/2010] - Thiago Scuro **

"O Brasil é o país do futebol". A celebre frase que faz do nosso povo mais forte e orgulhoso de si, que nos trouxe cinco títulos de Copa do Mundo e coloca constantemente nossos craques no topo da lista dos maiores do mundo pode estar ameaçada. É fácil comprovar nossos créditos no esporte, mas o que estamos fazendo para que tenhamos essa mesma força nos próximos 50 ou 100 anos?

O futebol sofreu muitas mudanças nos últimos anos, sendo que em certos períodos o Brasil teve enormes dificuldades de acompanhar essa evolução, vide o fato de termos ficado 24 anos sem conquistar um Mundial. Coincidentemente, nesse mesmo período, nossos clubes tiveram conquistas internacionais tímidas e projetamos menos atletas do que o habitual.

Estou falando sobre essas questões para justificar que todas as conquistas são reflexos de ações e trabalho. O próprio fato de termos voltado a conquistar uma Copa do Mundo em 1994, pode ser explicado com processo de desenvolvimento que alguns clubes fizeram no início dos anos 1990, como as conquistas do São Paulo, o vitorioso projeto Palmeiras/Parmalat, entre outros. E hoje fica mais fácil ainda ter essa percepção se lembrarmos que jogadores como Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo, Djalminha, Zetti, Gilmar Rinaldi, Raí, entre outros, são produtos desse movimento.

No início dos anos 2000 iniciou-se um processo de investimento em formação de atletas. Tivemos a Toca da Raposa I (Cruzeiro), CT do Caju (Atlético Paranaense), CT Cotia (SP), CT PAEC (Pão de Açúcar), Cidade do Galo (Atlético Mineiro), Grêmio e Internacional, Meninos da Vila (Santos), entre outros, que mesmo sem possuir "grandes" estruturas físicas para a formação de jogadores de futebol, representaram um investimento maior no setor.

Tivemos também a aproximação da universidade dos clubes de futebol, com metodologia, conhecimento em áreas até então distantes da base, como fisiologia, fisioterapia, entre outras. Ou seja, se hoje temos uma facilidade maior em produzir atletas, é reflexo do trabalho, de profissionalização no processo de formação do jovem. Nada tem a ver com o fato de sermos o país do futebol ou dizer que jogador "brota" no Brasil.

Se por um lado o nível técnico está avançando muito bem, nunca tivemos seleções de base tão vitoriosas. Por outro lado, estamos sendo ameaçados pelo processo de gestão e influência de agentes sobre nossos jovens atletas. Alguns clubes já pensam em desistir desse investimento, em deixar as categorias de base e focar apenas no profissional. Os episódios recentes envolvendo atletas do São Paulo F.C. é somente a ponta do iceberg. Problemas com a ação de agentes nas categorias de base dos clubes são mais antigos e maiores do que se imagina.

Precisamos nos ajudar, obter um envolvimento do Poder Público, equipes de futebol, confederação e federações no sentido de criar novas barreiras e proteção aos clubes.

Precisamos pensar no fato de que para ter o Neymar ou Pato, milhares de jovens foram mantidos fora das ruas, em atividades saudável dentro dos clubes. Além do processo de formação de atletas, temos um impacto social imenso proporcionado pelas representações esportivas. E se perdermos a crença no sistema, afastaremos não somente grandes jogadores, mas formaremos piores cidadãos, e para esses, tenho certeza, não teremos fila de agentes para "ajudar".

A verdade é que enfraquecimento dos clubes diante da legislação e decisões do poder judiciário ameaça nosso futebol. Estamos, na realidade, vivendo um processo de enfraquecimento dos clubes, da nossa sociedade e, exatamente por isso, deve ser um assunto de todos.

 

Autor: * Thiago Scuro é professor do MBA Gestão e Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios em parceria com a Brunoro Sports Business.

Siga-nos no Twitter

Toda história tem Versões e Fatos