[Abril/2010] - Paulo Skaf**
Transcorria 2007. Como vínhamos procedendo desde o início de nossa gestão na presidência da Fiesp, defendíamos com muita convicção a queda dos juros, apresentando estudos e argumentos substantivos ao governo. Procuramos demonstrar tecnicamente a desnecessidade de taxas elevadas para controlar a inflação e os danos por elas causados à meta do crescimento sustentado.
Ainda não se alardeava o grau avassalador da crise econômica deflagrada um ano depois. Em meio à nossa mobilização por uma Selic mais baixa, chamou-me atenção a leitura de artigo do economista William R. Cline, do Peterson Institute for International Economics. Quase profético, ele alertava: "Países como o Brasil devem adaptar-se ao novo cenário, no qual os Estados Unidos deixarão de ser o grande importador. É preciso olhar para outros compradores e pensar em demanda doméstica".
A ilação foi inevitável: como ser competitivo para continuar vendendo ao decrescente mercado norte-americano, ganhar espaços na China e demais emergentes e conquistar novos compradores, se os produtos brasileiros já começam perdendo para os concorrentes estrangeiros, por uma diferença média de sete pontos percentuais, no custo básico do dinheiro tomado para investimento? Como multiplicar o consumo interno se o juro chega a quintuplicar o preço de um bem?
E veio a grande crise.... O Brasil, não há dúvida, a enfrentou bem, a começar pela blindagem das reservas cambiais superiores a US$ 200 bilhões. Também foram eficientes as medidas anticíclicas da redução tributária, flexibilização do compulsório dos bancos e injeção de recursos para oxigenação do crédito. Finalmente, desencadeou-se diminuição paulatina dos juros básicos, ao longo de 2009, culminando com o menor patamar desde o advento do Real: 8,75%. Porém, nunca é demais lembrar que as taxas reais brasileiras, considerado o spread bancário, continuam sendo as mais altas do mundo.
Vencida a crise pelo País, chegamos a março de 2010, o ano da recuperação, sob rumores de recrudescimento da política de elevação da Selic. Estudos na mão, evidenciando não haver o menor risco de inflação de demanda, provando a capacidade produtiva da indústria e os investimentos feitos para fazer frente ao crescimento do consumo, fomos às autoridades para defender a sua manutenção. A sociedade civil foi ouvida! O Copom sustentou os 8,75% em sua primeira reunião no mês.
No entanto, a ata do organismo, na semana seguinte, foi uma ameaça de novo aumento. Então, é premente insistir: não há razões para isso, conforme demonstra, com absoluta lucidez, a matéria de capa desta Revista da Indústria.
Ademais, a crise passou, mas o vaticínio de R. Cline sobre a diversificação do mercado externo e a demanda doméstica virou verdade! Portanto, juro alto é uma teimosa incongruência!
Autor: *Paulo Skaf é o presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp).