Um ano novo decisivo para o desenvolvimento brasileiro

[Dezembro/2009] - Paulo Skaf**

A performance da economia brasileira a partir do terceiro trimestre de 2009 evidencia que o pior já passou quanto aos efeitos da crise mundial. A indústria, embora tenha sido protagonista da resistência do País e se superado para preservar a produção e grande volume de empregos, foi o setor mais atingido, com maior reflexo nas empresas exportadoras. Como sofreu quedas acentuadas, sua recuperação será mais lenta em relação aos demais segmentos. A verdadeira retomada da atividade manufatureira só ocorrerá em 2010, quando o PIB nacional deverá crescer acima de 5%.

A despeito das perspectivas positivas, devemos ficar alertas, pois episódios como o de Dubai indicam o quanto os mercados financeiros continuam suscetíveis à volatilidade dos capitais sem pátria deste mundo globalizado. Por isso, é importante refletir sobre os acertos e os equívocos na gestão da economia. Um dos aspectos a serem considerados foi a pertinente queda dos juros, mas a um ritmo um tanto lento. O conservadorismo do Copom faz com que não perceba que estamos perdendo preciosos pontos no PIB, além de emprego e renda.

A Fiesp já provou, por meio de estudos técnicos, haver condições de se baixar os juros a 7% ao ano, sem consequências maléficas. Entretanto, o que mais preocupa é as taxas reais do crédito não seguirem a Selic por causa do alto spread cobrado pelas instituições financeiras privadas. O governo precisa adotar providências para corrigir o problema e coibir abusos. Os bancos públicos atenderam às nossas considerações e argumentos e reduziram em até 30% seus spreads.

Independentemente desses problemas e das críticas construtivas que fizemos ao longo do ano a algumas questões relativas à política econômica, é preciso considerar que o País conseguiu controlar a inflação, reduziu razoavelmente os juros, incentivou a produção com o corte de impostos em alguns setores, manteve taxas de crescimento contínuo e o câmbio, de certa forma, está sob controle. Entretanto, a solidez da economia brasileira, bem como a exploração e produção do petróleo na camada Pré-sal, situa o País como destino seguro para investimentos estrangeiros. Com o aumento da entrada de dólares, a tendência é o real apreciar-se ainda mais.

Para manter o câmbio flutuante e evitar que isso seja prejudicial à produção e às exportações, o governo precisa, urgentemente, além de fazer as reformas estruturais, estimular a pesquisa, com o propósito de tornar nossa economia mais competitiva no mercado internacional.

No tocante ao petróleo da camada Pré-sal, um inegável trunfo econômico que nossa natureza nos proporciona, há duas ressalvas fundamentais. A primeira é que a abundância das reservas não devem nos desviar do fomento de uma economia movida a combustíveis renováveis e menos poluentes. O petróleo deve ser fator de riqueza e progresso, mas não de retrocesso à era do carbono. O segundo ponto é que o modelo de exploração não deve reviver os processos estatizantes. O dia em que a Petrobras operar 100% dos blocos poderá haver, por parte da empresa, uma acomodação, prejudicando o fomento tecnológico do setor. É preciso ter, pelo menos, 20% dos lotes sob controle de seus sócios.

O enfrentamento do crash mundial, incluindo o debate franco e aberto sobre os problemas, equívocos e acertos, mostra que o Brasil atingiu um patamar de maturidade democrática. Isto é importante na avaliação das perspectivas para 2010, pois, ao contrário do que ocorreu em épocas passadas, as eleições não deverão ter impacto negativo na economia. Seja quem for o próximo presidente da República, deverá manter o que se construiu até agora e, se possível, melhorar o cenário ainda mais.

O desafio é aproveitar a oportunidade de o País ter sido o primeiro a sair da crise e investir mais em educação, saúde, segurança, infraestrutura, pesquisa e inovação.

Este é um dever também da sociedade, como tem feito a Fiesp, ao investir de modo substantivo no Ensino Fundamental e Médio, cultura e saúde, por meio do Sesi-SP, hoje com mais de 250 mil alunos, e na educação profissional do Senai-SP, com mais de um milhão de matrículas anuais.

Além de ética e muito trabalho, é crucial que o presidente da República, governadores, senadores e deputados estaduais e federais a serem eleitos em 2010 comprometam-se, desde o primeiro dia de seus mandatos, com a realização das reformas estruturais, em especial a tributária, previdenciária, trabalhista e política, que não podem mais ser postergadas. Este é o passo definitivo para o Brasil ascender da condição de emergente à de país desenvolvido.

 

Autor: *Paulo Skaf é presidente da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo.

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