O fim do mundo e dos livros

[Dezembro/2009] - Fabio Arruda Mortara**

O filme "2012", uma superprodução de 200 milhões de dólares, sob a batuta especializada em catástrofes do diretor Roland Emmerich, e alguns livros sobre a Profecia Maia para o fim do mundo têm movimentado com vigor a indústria do entretenimento. O tema também é sucesso global nos jornais, revistas, rádio, TV e internet. Com seriedade, ironia, chacota, viés científico, enfoque metafísico, apelo supersticioso ou mera diversão, o assunto vem ocupando toda a ampla e diversificada mídia desta era da informação.

O Planeta já sobreviveu a numerosos vaticínios sobre a sua extinção, passando incólume por várias datas fatídicas, apontadas por Nostradamus, cientistas, místicos, pergaminhos misteriosos, achados arqueológicos e textos religiosos. A calamidade da vez é a Profecia Maia, baseada no calendário dessa fantástica civilização pré-colombiana, que prevê a tragédia final no dia correspondente a 21 de dezembro de 2012. Como, à época, a Terra estará alinhada ao Sol e ao centro da Via Láctea, especula-se sobre uma alteração do campo magnético, que provocaria imensos tsunamis, erupções vulcânicas e violentos terremotos.

Os presságios sobre o fim dos tempos têm instigante analogia com outra previsão intermitente na trajetória da humanidade: a extinção de determinadas mídias, ante o surgimento de outras. Até hoje, porém, nenhuma dessas profecias concretizou-se. Da mesma forma que a linguagem escrita, surgida há cerca de cinco mil anos na Mesopotâmia, não acabou com a fala, única forma de comunicação dos homens desde a pré-história, a imprensa de Gutenberg, há cerca de quatro séculos e meio, não extinguiu as cartas manuscritas; jornais, livros e revistas não acabaram devido ao surgimento do rádio; todas essas mídias e mais o cinema não sucumbiram ao advento da televisão, contrariando os rumores catastróficos difundidos durante tanto tempo.

A predição da vez quanto às mídias é relativa à comunicação gráfica, mais especificamente no tocante ao livro. Na recente Feira de Frankfurt, a maior do mundo no gênero, já se estabeleceu até mesmo o ano no qual ele acabará: 2018! A partir de então, haveria somente o e-book, já comercializado em todo o mundo, inclusive no mercado brasileiro. Não há dúvida de que o livro digitalizado é irreversível, como se pôde notar na edição 2009 daquele evento, na qual 361 expositores, ou 5% de um total de 7.373, o incluíram em seu mostruário. Porém, isto não significa o fim do impresso. Sempre haverá público para todas as modalidades dentre os quase sete bilhões de terráqueos.

Seria redundante e até ingênuo por parte das editoras, indústrias gráficas e amantes da palavra impressa negar ou resistir ao avanço do e-book. Tampouco é desnecessário discorrer sobre as vantagens do livro de papel, sua magia, preço, peculiaridades inerentes às artes gráficas e outros diferenciais. O importante é ter consciência de que o mercado da comunicação e do entretenimento tem espaço para todas as mídias. Cabe a cada uma delas desenvolver-se, agregar novas tecnologias, ampliar sempre a sua qualidade e se adequar às demandas de uma civilização cada vez mais inquieta e dependente da informação.

Felizmente, todos têm sido eficazes no enfrentamento desses desafios. No cinema, só a pipoca e o insubstituível encanto da telona são os mesmos. Imagem e som digitais, três dimensões e poltronas confortabilíssimas ajudam a seduzir os espectadores. O rádio, incansável prestador de serviços, atingiu níveis excepcionais de qualidade, como, aliás, puderam perceber alguns milhões de brasileiros, no apagão de novembro, quando essa mídia foi decisiva para informar, orientar e tranquilizar a população. Os livros estão cada vez mais bonitos, bem impressos, com diagramação atrativa e capas instigantes e irresistíveis. Suas tiragens, graças à tecnologia da impressão digital, que também não extinguiu o offset, adaptam-se às mais distintas demandas, títulos e mercados. O mesmo aplica-se a jornais e revistas.

Ouso, assim, fazer mais um vaticínio, em meio aos tantos que, vira e mexe, permeiam o inconsciente coletivo: se a Terra sobreviver à Profecia Maia em 2012, claro, o livro impresso não acabará em 2018! Afinal, sua extinção seria o fim do mundo da maneira como o conhecemos, à medida que sucumbiria o universo lúdico da tinta sobre o papel, no qual a humanidade convive há séculos, de maneira muito íntima, com sua história, cultura, literatura, ciência e todo o conhecimento que a permitiu sair das cavernas e conquistar o cosmo!

 

Autor: *Fabio Arruda Mortara, M.A., MSc., empresário, é presidente da Regional São Paulo da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf) e da Associação Latino-Americana de Artigos para Livraria e Papelaría (ALALP).

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