[Outubro/2009] - João Francisco Salomão**
Um dos grandes desafios da Amazônia é a implantação de eficaz e moderno sistema de transportes e logística, harmonioso com a preservação de suas fabulosas reservas hídricas, cobertura vegetal e biodiversidade, fundamentais à sustentabilidade da região, do Brasil e do mundo. Até hoje, realizam-se empreendimentos isolados, alguns muito importantes, é verdade, como a Rodovia Transoceânica, ligando o Acre à costa do Pacífico, no Peru. No entanto, é necessário um plano mais abrangente, que vislumbre de modo conjunto toda a demanda regional e estabeleça estratégia viável para supri-la.
É este o objetivo do Projeto Norte Competitivo, realizado pela Ação Pró-Amazônia, constituída em parceria pelas federações das indústrias da região. Trata-se de um consistente estudo a ser realizado, em prazo de seis meses, sob a coordenação da Macrologítica Consultoria e com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Objetivo é propiciar a integração física e econômica dos estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins), dotando-os de adequada infraestrutura de transportes para as ligações regionais, nacionais e internacionais. Serão verdadeiros eixos logísticos para incrementar o mercado interno, exportações e importações, em especial no tocante ao intercâmbio com os países limítrofes (Venezuela, Peru e Guiana Francesa) e os portos brasileiros.
O projeto está dividido em duas fases. A primeira é o diagnóstico de todos os gargalos. A segunda consiste na elaboração da lista de empreendimentos necessários à sua solução, incluindo um cronograma de obras. Estas, obviamente, serão priorizadas com base em sua atratividade para o investidor privado e no seu impacto socioeconômico. É de se esperar, ainda, o aporte de recursos por parte da União, estados e municípios, considerando sua responsabilidade no processo de desenvolvimento e o fato de receberem da iniciativa privada, um estudo de alto nível como referência para os seus planos plurianuais.
A metodologia do projeto é inteligente, pois tem como parâmetros a economia da Amazônia Legal e a sua efetiva demanda quanto aos transportes. Trata-se, portanto, de uma visão realista. O fluxo anual do comércio externo da região, de US$ 40,41 bilhões e movimento de 138,08 milhões de toneladas (dados de 2008), tem 80,6% de seu valor e 95,4% de seu volume vinculados a dez cadeias produtivas: indústria elétrica e eletrônica, soja, minério de ferro, petróleo e derivados, alumínio, siderurgia e derivados de ferro, bovinos, fertilizantes, madeira e cobre. Além dessas, serão consideradas mais sete cadeias produtivas com grande potencial de fomento.
No caso específico da manufatura, seus dez segmentos principais na região representam 95,7% de tudo o que é produzido e 96,6% de toda a balança comercial industrial da Amazônia Legal: pólos madeireiros, motos, siderurgia, frigoríficos, indústria eletrônica, refinaria, refrigerantes, fertilizantes, esmagadoras, sucroalcooleiras e alumínio. Indústria. No Acre, de modo mais específico, essas cadeias produtivas significam 99,9% de tudo o que é produzido, além de 96,8% da balança comercial industrial.
Os números evidenciam a relevância de uma eficiente infraestrutura logística e de transportes. Para isso, o estudo analisará a balança comercial internacional de cada produto, determinando os principais fluxos originários e os destinos. Também será feito o mapeamento das regiões consumidoras dos produtos amazônicos e projeções de demanda interna e externa, bem como o levantamento de aeroportos, rodovias, hidrovias e portos já existentes e a serem modernizados ou construídos.
Serão consideradas as distâncias, o tempo de percurso, as capacidades de movimentação de cada modal e os custos portuários, de frete, transbordo e armazenagem.
O Projeto Norte Competitivo deverá, portanto, produzir um plano estratégico de logística e os empreendimentos voltados ao estabelecimento de uma infraestrutura de transportes capaz de agilizar, propiciar mais segurança e reduzir os custos da movimentação de cargas. Desde já, as federações das indústrias da região, dentre elas a do Acre (Fieac), estão mobilizando o poder público, representantes de instituições privadas, associações, autarquias e agências reguladoras, para que todos possam colaborar. É imprescindível a união de forças em torno desse programa, cujo sucesso será um imenso passo para o desenvolvimento sustentado da Amazônia Legal e do Brasil.
Autor: *João Francisco Salomão é o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Acre — FIEAC (salomao@fieac.org.br).